sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Deusas de todas as cores, fraternai-vos...




Quando eu iniciei essa série de matérias sobre Deusas, na ótica da Jean Shinoda minha intenção era primeiro para aproveitar a releitura do livro e ir partilhando com as pessoas, algumas amigas as quais convidei nessa altura para partilhar comigo dessas leituras por estarem elas a vivenciar fases da vida onde talvez essa visão dos arquétipos femininos poderia ser de alguma valia. Uma dessas pessoas é a Patrícia, que vive uma relação familiar complicada, mas não interessam os detalhes… convidei-a para entrar no grupo pq já havia falado sobre ele e sobre o qto eu já aprendera lá e talvez as leituras dos textos pudessem ajuda-la a ultrapassar as suas dificuldades momentâneas.
Quando uma pessoa se dispõe a fazer um trabalho de conscientização das mulheres deve ter abertura a todas as mulheres, principalmente àquelas que mais precisam dessas informações, q agora estão despertando para isso, e nem sempre é de uma forma pacífica, às vezes os insigths vem com experiências dolorosas e as mulheres necessitam de apoio e acolhimento.
Nem todas as mulheres são já iniciadas no Feminino Sagrado e tbm não é preciso seguir à risca nenhuma cartilha, não existe hierarquia nem obediência cega… Cada mulher tem de ser respeitada, e acolhida, venha de onde vier, e como está se sentindo… afinal quando buscamos aprender, vamos atrás do q ainda não sabemos, aquilo q as pessoas já sabem ou julgam saber não tem interesse em aprender. E para ‘ensinar’ é preciso ter essa disposição de compreender as alunas e o ponto do aprendizado em que cada uma está, para à partir daí dar as informações de que precisam para orientar o processo da aprendizagem. Numa escola primária, com as criancinhas, equivocadamente, as professoras as tratam como tábuas rasas, e simplesmente derramam sobre elas os conteúdos, as que assimilam ganham A e as que não assimilam ficam com C e se a professora não tiver a sensibilidade de tratar alunas diferentes com novas metodologias, é a professora que precisa se reciclar e aprender a ensinar… Numa situação com adultos, seja em alfabetização ou num curso superior, os adultos vem já com alguma bagagem que precisa ser levada em conta para tornar mais eficiente a sua aprendizagem, não se pode simplesmente despejar os conteúdos, mas sim criar uma consciência crítica. Se estiver enganada, as especialistas podem se manifestar à vontade.
Gente, nesse círculo virtual de aprendizado e resgate do feminino por vezes lidamos com questões de exatamente aprendizado… didáticas, pedagogias… e quanto mais não seja, é desejavél que o ensino e a aprendizagem aconteçam num clima feminino de partilha do saber, onde todas aprendem e todas podem nos ensinar… ninguém sabe tudo e ninguém sabe nada… ninguém é dono da verdade como no jogo infantil onde o dono da bola só joga se for conforme ele manda, senão leva a bola embora consigo ou expulsa os dissonantes.
Você minha amiga, precisa ter essa abertura, e essa consciência alargada de que todas podem contribuir, que os diferentes pontos de vista tem de ser respeitados, você não sabe tudo nem é dona da verdade e nem todo mundo que quer resgatar o feminino e aprender sobre isso precisa pensar da mesma forma que você… não acredito em uma ditadura do feminino sagrado, as ideias não podem ser impostas de cima pra baixo e nem há encima ou embaixo, nas organizações femininas as coisas acontecem de forma horizontal. De outra forma apenas passamos o poder do patriarca para as mãos de uma mulher, criando um matriarcado, mantendo a forma de governo e manipulação, imposição e obediência cega. Um salazarismo de saias… eu não vou por aí…

Jean Shinoda qdo nos fala das deusas procura fazê-lo de forma alargada, procurando atender diversas mulheres, nas suas variadas fases da vida, nas suas variadas experiências e Héstia é uma delas, mas não é a única nem é a guardiã da verdade. O aspecto de Héstia em nós é mto importante pois é a área da espiritualidade, não pode de forma alguma ser menosprezada… mas contudo há outros aspectos que também não podem de forma alguma ser menosprezado, a maternidade e a sexualidade por exemplo são aspectos fundamentais da vida das mulheres, da maioria delas e isso não pode ser banido do aprendizado… não podemos acorrentar Demeter, Hera e Afrodite nem ignorar sua importância… mtas Atenas e Dianas da vida real ainda podem vir a se interessar pela sexualidade e pela maternidade, pois a juventude passa e dá lugar a novas vivências… elas podem sim passar direto pra Héstia, mas não são obrigadas a isso.

Eu não tenho nenhum interesse num matriarcado, nem na dominação da mulher, na supremacia do feminino ou na extinção dos homens… o q eu busco é a construção de um novo modelo social, com equilíbrio entre o feminino e o masculino, harmonia, como os vejo, como opostos complementares… não me interessam os conceitos católicos de sagrado celestial, de almejar ser pura e imaculada como a virgem, santa… nada disso me interessa… não quero esse tipo de consagração nem nunca pensei em entrar p nenhum convento, nem na vida real nem virtual, monastério, celibato, nem nada parecido me interessam…

Dizias sempre, amiga, q eu era mãe de santo, pois bem, a minha religiosidade nesse caso, é terrena e não celestial, é do tambor, da fogueira, dos pés descalços pisando a Mãe Terra, das danças libidinosas e dos rituais de sexo sagrado. Sou de Nanã, não uso véu, vivo pelada… Minha Deusa não é celibatária como os padres, ao contrário ela é cheia de fogo, fogosa… ela é boa parideira, é mãe solteira de muitos filhos de pais diferentes, portanto é uma deusa promíscua, sensual e festeira… não aceita dominação nem do homem nem de outras mulheres tampouco… não abre mão de sua autonomia, do seu prazer e de uma organização social horizontal, onde as pessoas possam ser acolhidas, respeitadas e todas partilhem do conhecimento, aprendendo e ensinando… eu sou de Nanã, eu prefiro ser uma metamorfose ambulante… eu estou aberta ao diálogo mas jamais à imposição de ideias ou obediência cega… estou aberta à Héstia, mas também às outras deusas, sem excluir nenhuma, nem nenhum aspecto da vida da mulher… a maioria das minhas ‘professoras’ são casadas, tiveram outros relacionamentos, são mães, embora hajam as virgens que nunca amaram nem foram amadas… e, no nosso clube cabemos todas que querem construir um novo modelo social, sem excluir ninguém… só as pessoas patriarcais ficam de fora…
Ser sincera, dizer o q penso não é desrespeitar ninguém… desrespeitar é não aceitar as diferenças, é mentir pra si mesma, criar subterfúgios, fazer chantagem, jogar as pessoas umas contra as outras… são joguinhos patriarcais que as mulheres usam a milénios pra sobreviver… hj as mulheres não precisam mais de nada disso… são livres na medida em que fazem suas escolhas, não tem nada que esperar o salvador da pátria… lealdade não é obediência cega… lealdade é aceitar os outros como são, é amar sem impor condições, é a liberdade de poder discordar, administrar diferenças e conflitos na boa, sem fazer disso uma batalha de egos, saber quem tem razão… qdo eu elogio as pessoas faço com amor, e qdo critico faço da mesma forma… com amor, com gratidão… recebo elogios e críticas o tempo todo, sem me deixar levar por um ou por outro, ambos podem ser válidos, ambos podem ser falsos, é só saber filtrar… acima de tudo, repara… pra vc só somos amigas qdo concordo contigo em tudo, a 100% se não não presto p nada, não sei nada… isso não é amizade… é outra coisa q nem sei o nome q tem e nem me interessa… aqui já fui usada mtas vezes, caindo na pilha p defender outras pessoas, territórios, bobagens… património intelectual… já fui arqueira, já fui puxa-saco, fui mesmo e ainda sou, das mulheres q são pra mim inspiração pra criar um mundo novo onde posso existir, e continuarei sendo… mas hierarquia, obediência cega, submissão isso não tem jeito não… fingir q concordo com tudo, aceitar a imposição de conceitos, de verdades, sem ter direito de expressão, de opinião, de ser eu mesma, isso não tem jeito… não é pra mim… não sei me relacionar assim, não sou autista… se tu, ou qqr pessoa prefere viver numa redoma, onde só a tua ideia interessa, só existe tua verdade, isso não é pra mim…

Em parte, concordo com as tuas ideias… em parte não concordo, são incompletas, ou até se referem a ti, tua história, tua geração, tua cultura, tua esmerada classe, posição social, sei lá… mas há mto mais além disso e não podemos sofismar, não devemos confundir as pessoas ou a nós mesmas… tudo bem, não podemos se calhar tratar de outras questões por não ter nenhuma ou mto pouca experiência no assunto… isso faz sentido… uma pessoa sem experiências amorosas ou sexuais de fato não pode tratar do assunto… a não ser e forma teórica e abstrata mas isso é praticamente inútil… como compreender a maternidade se nunca foi mãe, nunca esteve grávida, nunca sofreu um aborto, nunca amamentou, nunca foi responsável por outra(s) vida(s) não sabe do desprendimento q é preciso ter para amar infinitamente uma célula q se transforma em vida através de ti e ficas a ela ligada por toda a vida… se alguém nunca sentiu desejo, tesão, prazer como poderá falar disso, melhor não falar mesmo… melhor falar a partir da sua própria experiência e escolhas tudo bem, acho coerente… mas isso não desmerece nem invalida as experiências das outras mulheres em diferentes fases da vida… ao contrário, a riqueza está justamente na TROCA de experiência… na variedade, e em respeitar as diferenças… se apenas o caminho de Héstia fosse válido pra que existiriam as outras deusas, só pra enfeitar o Olimpo? Não… se Jean ao estudar os arquétipos escolheu as outras deusas é pq TODAS são importantes… se completam na sua diferença… se complementam… e pela vida afora, vamos poder vivê-las todas ou algumas, saudavelmente… sem impor apenas uma como certa, como o caminho, válido… isso não existe… todas as mulheres, e todas as deusas são válidas… acaso a lua é só minguante o mês inteiro? Podemos excluir as outras fases da lua? Podemos excluir as outras fases da vida da mulher? Não!!! Uma mulher q não quer ser mãe, pode excluir a Demeter da sua vida, mas não pode exclui-la da vida de toda as mulheres… uma mulher q não gosta de sexo, de prazer pode excluir a Afrodite da sua vida, mas não pode excluí-la da vida de todas as mulheres… uma mulher q não quer se casar, q não sente falta de uma ligação afetiva formal, hetero ou homo, não se sente metade de ninguém pode excluir Hera da sua vida, mas não pode excluir o casamento da vida de todas as mulheres… eu, por exemplo debati tantas vezes isso aqui… pq o casamento, como foi criado, como foi instituído, exclusivamente dentro do patriarcado pra aprisionar as mulheres, mas não posso excluir Hera da vida das outras mulheres só da minha… Uma amiga q é casada mas não teve filhos entende q a prisão é a maternidade, pra ela Hera faz todo sentido, Demeter não… não precisamos brigar por isso, são escolhas pessoais da vida de cada uma… isso não invalida as outras deusas como arquétipos, todas são importantes… as nossas escolhas pessoais só são válidas p nós mesmas, não podem ser impostas às outras, como certas, como único caminho… levar as mulheres por aí pode ser conduzi-las a um precipício, e isso sim pode por todo o trabalho a perder… pq meter na cabeça delas q elas tem de ser héstias consagradas e q os outros aspectos são meros detalhes, e subestimar a força dos outros arquetipos q de repente brotam na mulher, aparentemente do nada… se elas despertam uma afrodite ou uma demeter abandonam héstia e vão embora sem olhar pra trás… pq desconhecem as outras deusas, e obedecem cegamente achando q apenas um aspecto é importante ou válido, assim se mudam de deusa, abandonam a anterior, pq foram ensinadas a excluir… e olha lá… quem excluiu as outras ficará excluída tbm… por isso inicio o ano com Jean Shinoda Bolen e vou com ela o ano todo, não só ela, mas mtas outras… mas começo o ano aqui tratando das deusas, sem excluir nenhuma… aqui no nosso clube cabem todas as deusas e todas as mulheres, cabe homem, cachorro, gato, coelho, preguiça e papagaio… só não cabem as pessoas patriarcais… e vamos seguir com as deusas, como está no livro, começamos com as deusas virgens… é já a seguir…

Amiga, falo essas coisas não é por mal, ao contrário, acho q estás equivocada, e não pode excluir os outros aspectos da deusa… nem as mulheres diferentes de ti e da tua linha de pensamento… olhe em volta, e veja-as alinhadas em círculo, todas estão horizontalmente aprendendo e ensinando… todas as mulheres e deusas… e precisamos de todas… não podemos excluir nem umazinha… convoco a deusa Héstia para trazer entendimento e serenidade, pra envolver com a paz espiritual este momento e dar a sua luz pra clarear as ideias e o caminho por onde a Mãe Terra quer que andemos e o seu fogo para aquecer nossos corações e selar a amizade sincera e fraterna entre nós e todas as mulheres e todas as deusas, todas nós q construímos um novo modelo social, que estamos todas sob seu manto, em círculo, ao som dos tambores… não seja a minha vontade nem a minha ideia, mas antes a Grande MãeTerra q olha por todas e por cada uma, e nos acolhe no seu útero aconchegante de onde vem o elo que nos irmana a todas…



Aproveito o ensejo pra desejar as melhoras e pedir também pela saúde de Rose Marie Muraro, ela teve uma queda no fim de semana e está em casa, mas ficou dodói e é sempre chato em qqr fase das nossas vidas... Rose, muita saúde pra vc, obrigada pela sua compreensão e abertura, pela sua paciência comigo e sobretudo pelos seus ensinamentos... não só pra mim como para todas as suas leitoras... me sinto realmente previlegiada por priva da amizade pessoas das minhas nanãs, q são acima de tudo duas das 3 autoras definitivas da minha vida... tudo q eu posso é agradecer-vos e me tornar uma mulher mais consciente a cada dia... tudo o que sou hj é resultado do q aprendi com vcs as 3 nesses longos dias caminhando ao lado de vcs... Minhas Deusas, minhas grandes influências, Rose Muraro, Rosa Leonor e Riane Eisler, esta última ainda não conheço pessoalmente... se calhar, devia aproveitar o ano novo e aprimorar o meu inglês, ainda dá tempo... fui...

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