quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Hera

Deusa do casamento, do compromisso e esposa

A Deusa Hera
Imponente e real, a bela Hera, a quem os romanos conheciam como Juno, era a deusa do matrimônio. Era a cônjuge de Zeus (Júpiter), o deus supremo dos olímpicos, que governava sobre os céus e a terra. Pensa-se que o seu nome signifique "Grande Senhora", a forma feminina da palavra grega herói. Os poetas gregos referiam-se a ela como "olhos de vaca", para elogiar seus olhos grandes e belos. Seus símbolos eram a vaca, a via-láctea, o lírio e a iridescente pena da cauda do pavão, que continha olhos, simbolizando a cautela de Hera. A vaca sagrada era uma imagem associada com as deusas da Grande Mãe como provedora de alimentação, enquanto a via-láctea-nossa galáxia, do grego gala, "leite da mãe" - reflete a crença, anterior às divindades olímpicas, de que a Via-Láctea veio dos seios da Grande Deusa como Rainha do Céu. Isso depois tornou-se parte da mitologia de Hera: quando o leite jorrou de seus seios, a via-láctea foi formada. As gotas que caíram no chão tornaram-se lírios, flores simbolizando outra crença pré-helênica no poder de autofertilização dos órgãos genitais femininos. Os símbolos de Hera (e seus conflitos com Zeus) refletem o poder que ela outrora deteve como uma
Grande Deusa cuja veneração precedeu Zeus. Na mitologia grega Hera tinha dois aspectos contrastantes: era solenemente reverenciada e venerada em rituais como poderosa deusa do casamento, e foi difamada por Homero como víbora vingativa, briguenta e ciumenta.

Genealogia e Mitologia
Hera era filha de Réia e Crono. Foi engolida por seu pai assim que nasceu, como seus quatro outros irmãos. Quando emergiu de seu cativeiro de dentro de Crono, já era jovem. A jovem foi deixada aos cuidados de duas divindades da natureza, que eram os equivalentes de idosos pais de criação de alta classe. Hera cresceu para ser uma deusa adorável. Atraiu Zeus, que até então tinha conquistado Crono e os Titãs, tornando-se o deus supremo. Não importava que ele fosse seu irmão - os deuses olímpicos tinham suas próprias leis ou falta delas, quando se tratava de relacionamentos. Para se tornar íntimo da jovem virginal, Zeus se metamorfoseou num pequeno pássaro, arrepiado e patético, do qual Hera teve pena. Para aquecer a criatura arrepiada, Hera o manteve junto ao peito. Então Zeus mudou seu disfarce, reassumiu sua aparência varonil e tentou violentá-la. Seus esforços não foram bem sucedidos. Ela resistiu às suas tentativas amorosas até que ele prometeu casar-se com ela. Dizem que a lua-de-mel que se seguiu durou trezentos anos.
Quando a lua-de-mel terminou, estava de fato terminada. Zeus retornou aos seus promíscuos modos pré-nupciais (ele teve seis companheiras diferentes e muita descendência antes de casar-se com Hera). Zeus era continuamente infiel, provocando ciúme vingativo em sua esposa traída. A raiva de Hera não era direcionada a seu marido infiel; dirigia-se "à outra mulher" que, na maioria das vezes, tinha sido seduzida, estuprada ou enganada por Zeus; ou se dirigia às crianças concebidas por Zeus, ou ainda aos inocentes espectadores.
Há numerosas histórias da ira de Hera. Quando Zeus levou Egina a uma ilha para violentá-la, Hera deixou solto um dragão monstruoso, que destruiu muito da população. E quando se tornou enraivecida pelo nascimento de Dioniso, ela enlouqueceu seus pais de criação num esforço mal sucedido de destruí-lo.
Calisto foi outro desafortunado pego no fogo cruzado entre Zeus e Hera. Zeus enganou Calisto assumindo a aparência de Artemis, deusa da caça, e depois a seduziu. Hera reagiu a esse acontecimento transformando Calisto num urso e o filho de Calisto a teria assassinado sem saber. Mas Zeus colocou ambos, mãe e filho, no céu como as constelações de Ursa Maior e Ursa Menor. Hera foi humilhada pelos muitos romances de Zeus. Ele desonrou seu casamento, que era sagrado para ela, e além disso lhe causou pesar, favorecendo os filhos dele com outras mulheres. Para acrescentar insulto à injúria, ele mesmo deu à luz sua filha Atena deusa da sabedoria, demonstrando que não precisava de sua esposa nem mesmo para essa função. Hera teve diversos filhos. Numa reação de pagar na mesma moeda o nascimento de Atenas, Hera decidiu ser sozinha mãe de um filho, e concebeu Hefesto, deus da forja. Quando ele nasceu com um pé torto - uma criança defeituosa, diferente da perfeita Atenas-
Hera o rejeitou e o jogou fora do monte Olimpo. Hera foi também, segundo dizem alguns, a única a gerar Tifão, um monstro desumano, destruidor, "horrível e nocivo". E Ares, deus da guerra, era o filho de Hera e Zeus (Zeus desprezava Ares por perder o controle no ponto culminante da batalha). Hera também teve duas filhas pálidas: Hebe, adolescente copeira, e Ilítia, deusa do parto, que compartilhou seu papel com Ártemis (as mulheres em parto apelavam a ela como Ártemis Ilítia). Hera em geral reagia a cada nova humilhação com uma ação. Mas a raiva e a vingança não eram suas únicas respostas. Em outros momentos, ela se retirava. Os mitos falam das peregrinações de Hera aos limites da terra e do mar, durante as quais ela se envolvia na mais profunda escuridão, separando-se de Zeus e dos outros deuses olímpicos. Num mito, Hera voltou às montanhas onde tinha passado os dias felizes da sua juventude. Quando Zeus viu que ela não pretendia voltar, tentou despertar seu ciúme anunciando que estava para se casar com uma princesa local. Então programou uma cerimônia simulada com a estátua de uma mulher. Esta brincadeira divertiu Hera, que o perdoou e voltou ao monte Olimpo. Embora a mitologia grega enfatize a humilhação e a índole vingativa de Hera, em sua veneração, por contraste, ela era grandemente honrada.
Em seus rituais Hera tinha três epítetos e três santuários correspondentes, onde era venerada durante o ano. Na primavera, ela era Hera Partenos (a jovem Hera, ou a virgem Hera). Era celebrada como Hera Teleia no verão e no outono (Hera, a perfeita, ou Hera, a realizadora), e tornava-se Hera Chera (Hera, a viúva) no inverno. Esses três aspectos de Hera representam os três estados da vida de uma mulher, simbolicamente revividos em vários rituais. Na primavera uma imagem representando Hera era imersa num banho, restaurando simbolicamente sua virgindade. No verão, ela alcançava perfeição num ritual de casamento. No inverno, outro ritual enfatizava tanto a disputa como a separação de Zeus, cujo ritual precedeu a fase de Hera, a viúva, durante a qual ela ficava no esconderijo.

O Arquétipo de Hera
Como deusa do casamento, Hera foi reverenciada e injuriada, honrada e humilhada. Ela, mais do que qualquer outra deusa, tem atributos marcadamente positivos e negativos. O mesmo é verdadeiro para o arquétipo de Hera, uma força intensamente poderosa para a alegria ou a dor na personalidade de uma mulher.

A esposa
O arquétipo de Hera, primeiro e antes de tudo, representa o desejo ardente de ser esposa. A mulher como forte arquétipo de Hera sente-se fundamentalmente incompleta sem um companheiro. É motivada para o casamento por um instinto "concedido por uma deusa". Seu desgosto de estar sem companheiro pode ser experiência interior tão profunda e ofensiva como o fato de não ter filhos para a mulher cujo impulso mais forte é ter bebê. Como psiquiatra, estou bastante conscientizada do sofrimento de uma mulher tipo Hera quando ela não tem nenhum homem significativo em sua vida. Muitas mulheres têm compartilhado comigo seu pesar. Uma advogada disse soluçando: "Tenho trinta e nove anos e não tenho um marido! Tenho tanta vergonha!" Uma enfermeira atraente, divorciada, de trinta e dois anos, disse pesarosamente: "Sinto-me como se tivesse uma grande cavidade em minha psique, ou talvez seja uma ferida que nunca cicatriza inteiramente. Meu Deus, estou abandonada a mim mesma. Saio o suficiente, suponho, mas nenhum dos homens que encontro quer me levar a sério". Quando a mulher com necessidade compulsiva de ser companheira se torna envolvida num relacionamento comprometido, muito do desejo ardente criado pelo arquétipo de Hera de ser esposa se torna presente. Mas ela sente ainda desejo premente pelo próprio casamento. Precisa do prestígio, respeito e honra que o casamento tem para ela, e quer ser reconhecida como "senhora Fulana de tal". Ela não quer simplesmente viver junto, mesmo numa época em que tais arranjos não são estigmatizados. Então ela pressiona por reconhecimento externo; acha o casamento na grande igreja infinitamente preferível a voar para o Reno ou descer ao City Hall.
Quando Hera é seu arquétipo, a noiva pode sentir-se como deusa no dia do casamento. Para ela o casamento iminente evoca a antecipação da realização e da integridade, que a enche de alegria. Esta é a noiva radiante, repleta de Hera. A ex-primeira dama dos EUA, Nancy Reagan personifica o arquétipo da esposa. A senhora Reagan deixou claro que ser a esposa de Ronald Reagan é a sua mais importante prioridade. Quando descreve a importância de seu casamento, fala para todas as mulheres que personificam Hera em casamento feliz: No que me diz respeito, nunca vivi realmente até que encontrei Ronnie. Oh, sei que essa não é a moda popular hoje em dia. Supõe-se que você seja totalmente independente, tendo seu marido ao redor como algo conveniente. Mas não posso deixar de me sentir assim. Ronnie é a razão de eu viver feliz. Sem ele, sou realmente infeliz e não tenho nenhum outro propósito ou direção na vida. Nossa cultura até muito recentemente ecoava o ponto de vista de Nancy Reagan: "casar-se" era considerado a realização principal de uma mulher. Até agora, quando a educação e os objetivos da carreira são importantes, muitas mulheres não podem escapar de se sentirem pressionadas pelas expectativas culturais de "se estabelecerem e se casarem". Dessa forma, o arquétipo de Hera recebe enorme apoio. Além do mais, certa mentalidade de "Arca de Noé" prevalece. Espera-se que as pessoas venham aos pares, como sapatos ou meias. Com isso como norma social, as mulheres solteiras ficam destinadas a sentir que estão perdendo o barco. Então o arquétipo de Hera torna-se reforçado tanto pelas conseqüências negativas quando ela não se harmoniza com Hera, quanto pela validação positiva quando se harmoniza. A evidência de que Hera não deveria ser unicamente a criação de uma cultura patriarcal - uma cultura que desvaloriza a mulher até que esta seja escolhida por um homem (quanto mais poderoso o homem, melhor) - é sugerida por uma tendência semelhante em muitas mulheres lésbicas. Muitas lésbicas sentem ímpeto de ter companheira, a mesma necessidade por fidelidade, a mesma expectativa de que a realização virá através de sua companheira, e o mesmo desejo premente por cerimônia ritual que proporcionará reconhecimento exterior de estar acasalada. Com certeza, a mulher lésbica que personifica Hera não responde à pressão cultural ou às expectativas familiares, pois ambas tentam condenar o relacionamento, em vez de sustentá-lo.

Capacidade para o compromisso
O arquétipo de Hera proporciona capacidade de se estabelecer elo, de ser leal e fiel, de suportar e passar pelas dificuldades com companheiro. Quando Hera é a força
motivadora, o compromisso da mulher não é condicional. Uma vez casada, propõe-se a
permanecer assim, "para melhor ou para pior".
Sem Hera, a mulher pode passar por uma série de relacionamentos de curta duração, mudando quando surgem as inevitáveis dificuldades ou quando a mágica inicial do
enamorar-se gradualmente se enfraquece. Ela pode não se casar e pode sentir-se completamente bem quanto a seu estado de solteirona. Ou pode passar pelos impulsos - a grande igreja para o casamento e tudo o mais-embora não se sinta ligada, do modo vital de Hera, ao homem com quem se casou. Quando as mulheres se casam sem Hera, "alguma coisa fica faltando". Essas foram as palavras exatas usadas por uma de minhas pacientes, fotógrafa de quarenta e cinco anos de idade que perdeu profunda conexão com seu marido: "Gosto dele e tenho sido boa
esposa", disse. "Contudo, freqüentemente penso que viver por conta própria se adaptaria melhor a mim. Se as mulheres flertam com ele quando estou ao redor, ele algumas vezes as encoraja - para meu benefício, penso eu. Ele espera que eu reaja com ciúmes e então fica contrariado porque não fico contrariada. Suponho que ele suspeite que não é essencial para mim - o que é verdade. Bem no fundo, não sou esposa realmente devotada, embora meu comportamento como esposa esteja além da crítica." Tristemente para ambos, até mesmo depois de vinte anos de casamento, Hera não se tornou arquétipo ativo.
calma... amanhã vem o restante...

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